terça-feira, dezembro 01, 2009

Os anjos e os diabos no “Caso ADM”

Por Jeremias Langa

Mavale só fez a denúncia após ser demitido do cargo de administrador. Enquanto esteve no cargo, enquanto teve a mama, nunca teve a preocupação de o fazer. Quer dizer, denunciou os seus companheiros por vingança.
Cada vez que um réu ou declarante abre a boca, no julgamento do chamado “Caso Aeroportos”, fica a convicção de que o compadrio e o nepotismo são uma prática normal em algumas instituições públicas no nosso país. Analisa-se as declarações de cada um e pasma-se a naturalidade com que se vive com certas práticas.
Comecemos pelo principal queixoso do caso – o ditoso ex-administrador financeiro Hermenegildo Mavale. Agora, após ouvi-lo a falar em tribunal como declarante, custa entender como uma pessoa tão enredada no problema é declarante e não réu. Mavale foi ao tribunal fazer o papel de vítima, disse que aceitou fazer pagamentos obedecendo a ordens verbais do PCA, mas é inacreditável como o mais alto responsável financeiro de uma empresa da envergadura da ADM pode aceitar efectuar pagamentos consecutivos sem lhe apresentarem papel. Só pode haver uma explicação: ele próprio beneficiava de alguma maneira dessas ordens. Porque Mavale sabia que ninguém é obrigado a cumprir ordens ilegais. Mas mesmo assim, ele cumpria. E quem rouba... é tão responsável quanto quem manda roubar!
Mais: o facto de um financeiro como Mavale ter achado muito natural um suposto pagamento à Frelimo sem papéis, mostra que ou estava habituado a fazer aquele tipo de pagamentos e daquela maneira, ou não tinha rigor suficiente para financeiro de uma empresa da grandeza da ADM.
Outrossim, Mavale só fez a denúncia após ser demitido do cargo de administrador. Enquanto esteve no cargo, enquanto teve a mama, nunca teve a preocupação de o fazer. Quer dizer, denunciou os seus companheiros por vingança, porque lhe privaram de continuar a usufruir dos benefícios ilícitos; porque, incautos, os colegas lhe fecharam a torneira e não perceberam que, com isso, se expunham aos ódios do companheiro.
Na verdade, é apenas isto que torna diferente o que aconteceu na empresa Aeroportos. Aqui, zangaram-se as comadres e entraram num processo de vingança. Nas outras empresas públicas, pelos vistos, as comadres colocam o que os une acima das diferenças.
Igualmente estranho é o papel dos administradores da SMS, desde a PCA Maria João Coito a José Dzeco. O segundo até admitiu em tribunal ter assinado um cheque de 25 mil dólares em nome de um estranho só porque o PCA lhe disse que era para a Frelimo. Ou estaria ele já habituado a passar cheques a favor da Frelimo? Como pode toda uma administração da SMS ter sido tão imprudente ao ponto de permitir que esta empresa fosse usada para acomodar vontades obscuras?
Por fim, mas não menos importante, o inspector-geral do Ministério dos Transportes e Comunicações, Damião Lampião, confirmou que ele, e toda a entourage que rodeava o ministro António Munguambe, se distribuíam cargos em empresas públicas, a seu bel-prazer, em nome de “acarinhamento de quadros”. Chegou ao ridículo de dizer ao tribunal que o MTC tem inspector, mas não tem inspecção; que ele próprio é PCA não executivo na Marinha no âmbito da tal política de acarinhamento de quadros. Ou seja, se até aquele que é o fiscalizador entra em compadrios para aumentar rendimentos, acumulando funções claramente incompatíveis numa instituição que ele próprio devia fiscalizar, estamos em presença de quê? Isto tudo, só pode querer dizer que a rede de corrupção tem como pilares aqueles a quem cabe, em primeiro lugar, a responsabilidade de combatê-la. É isto, infelizmente, que torna difícil a abordagem ao tema corrupção neste país, apesar da beleza do discurso.


13 comentários:

CHAUQUE disse...

palavras para qué?ta tudo dito

Chacate Joaquim disse...

Ninguém é nauralmente honesto. Ele fez mal por denunciar estes actos! para mim não importa o que lhe moveu, qualquer que fosse denunciar este acto seria por vingança de estar a pagar impostos para um grupo se benefiar ilicitamente! bem haja Mavale.

Nós não sabemos o que queremos. colocamos alguém para lutar contra a corrupção ao desencadeiar acções começamos a virar os canos contra ele!

Frangules e Rupía são exemplos de vítimas dessa vossa forma de ser e estar Jeremias...

O patriota disse...

Ai esta.
Fica cada vez mais adiado o sonho de viver numa nacao livre desse mal. Combater a corrupcao significa acabar com a vida de satrapas com que os nossos dirigentes vivem. E pelos vistos, vao continuar a fazer o maximo para manter o status quo. Portanto, a todos homens de bom senso, so os resta esperar por um milagre dos ceus, visto que puni-los via eleicoes, ja era!
Deus nos oica!

Gata disse...

"Dos males, o pequeno!" Penso que apesar de tudo valeu a pena a denuncia, caso contrario o assunto morreria no segredo dos "compadres". Porém penso que no meio disso seja também apurada a sua culpa, porque embora estivesse a cumpri ordens, ele cometeu ilegalidades equando esteve como administrador.

Reflectindo disse...

Caros Chauque, O patriota, Chacate e Gata

Posso estar errado, mas entendo que Jeremias Langa está espantando sobre a corrupcão em Mocambique. Entendo que ele deu exemplo de Hermenegildo Mavale para dizer do porquê ainda não ouvimos de casos semelhantes nas outras empresas públicas. Nas outras empresas devem-se evitar demissões entre pessoas com evidências de formas que o segredo não saia para fora.
Na verdade, o que vai se revelando neste processo, dita que entre os bosses das nossas empresas não há quem questiona quando se passam cheques para o Partido Frelimo e que isso não comecou com que se revelou nos primeiros dias do julgamento. Vejam como é surpreendente que mesmo depois da demissão de Cambaza a ADM continuou a pagar a factura da Frelimo.

Eu concordo com Jeremias Langa, mas precisamos de reflectir ainda sobre o que fez com que fosse possível levar o caso ao tribunal. Há casos quase idênticos que foram abafados e os seus autores promovidos. Em 2005 denunciou-se um quase semelhante na Electricidade de Mocambique e não houve nenhuma reaccão. Temos também o caso da Direccão Provincial dos Antigos Combatentes de Maputo, denunciado directamente ao Presidente da República, Armando Emílio Guebuza. Eu ouvi ela pela rádio a denunciar, dizendo que tinha todo o dossier, como posso recordar a todos aqui.

Caro O Patriota, o problema das eleicões é que o virus corrupcão está lá implantando para evitar qualquer mudanca.

Chacate, definitivamente, sem interesse nunca há preocupacões. Portanto Mavale fez um excelente trabalho nem que seja por ele ter deixado de mamar.

Abracos


A

Chacate Joaquim disse...

Reflectindo, isso é que me preocupa! porque há filhos e eteados?

Veja esse caso dos antigos combatentes! certamente a senhora que denunciou deve estar a passar maus bocados como Frangules e Rupia. no entanto, estamos a lutar contra a corrupção... Haverá gente autorisada para práticas ilícitas e outros não?

Para mim o que deve antes acabar é gente que se considera proprietário de todo um estado e seus elementos.

Reflectindo, Depois do caso MIT, não havia outra saida se não encontrar um fraco para fazer o papel de luta contra corrupção no contexto Guebuziano e o bode é aeroportos.

Será que nos CFM, LAM,TDM,EDM etc. está tudo bem?

A delapidação do herário público é de todo um sistema, teriamos de substituir todas as peças desde a Cambota.

Linette Olofsson disse...

É O FUTURO MELHOR...
COMBATE A POBREZA...

No julgamento...
Homicídio qualificado versus roubalheiras
Realmente mais palavras para que?

Reflectindo disse...

Mano Chacate

O caso dos Antigos Combatentes é daqueles que nós todos devíamos exigir que se investigasse e até certo ponto devia ser de avaliação do cometimento de Armando Guebuza no combate à corrupção. Para mim, naquele mesmo dia do mês de Agosto de 2008, deu entender que Guebuza não quer nada combater a corrupção. Um Presidente da República não pode reunir tanta gente para entretenimento, mas naquele dia foi mesmo isso o que nunca devíamos aceitar. Naquele dia recordei-me de Samora Machel que apesar de tantos erros, estava comprometido no combate a males como a corrupcão. Mas talvez seja porque Samora Machel não tinha enriquecido ilicitamente. Não tinha compromissos com corruptos e assim ele tinha autoridade.

Ainda, há coisa interessantíssima. Tal como agora para o Caso Aeroportos, houve poucos juristas, economistas, sociólogos que comentaram e repudiaram o Caso dos Antigos Combatentes. Tanto quanto me lembro, só o jurista João Baptista André Castande se pronunciou contra aquela atitude.

Agora um Estado com filhos e enteados esse Estado já se demitiu. E como isso não vem do Estado, mas governo, digamos que esse governo se demitiu. Não nos resta nada do que o cidadão de bom senso manifestar contra as roubalheiras. Não devemos mais aceitar teatros e se é isso que os espectadores seja os mesmo corruptos.

"Será que nos CFM, LAM,TDM,EDM etc. está tudo bem?"

Como estaria tudo bem naquelas empresas se o princípio de nomeacão dos seus dirigentes é o mesmo dos Aeroportos? Como estaria lá tudo bem se todo o desencaminhamento dos dinheiros do AdM nunca foi estranho tanto no Comité Central do Partidão como em todo pessoal envolvido no caso nem que novo fosse/seja nos Aeroportos de Mocambique?

O Partido Frelimo não questiona da legalidade das ofertas vindas das empresas sobretudo públicas?

"Reflectindo, Depois do caso MIT, não havia outra saida se não encontrar um fraco para fazer o papel de luta contra corrupção no contexto Guebuziano e o bode é aeroportos."

Meu irmão Chacate, desta vez o tiro saiu pela culatra. Tenho quase certeza que os Guebuzianos pensaram que o dinheiro drenado ao Partido Frelimo seria omitido. Daí que podemos ainda analisar sobre como foi possível denunciar aquela parte que envolve o partidão. COMO FOI? QUEM DESVENDOU O GRANDE SEGREDO?

Muitas bocas dizem que uma parte dos dinheiros desviados do MINT foram também para o Partido Frelimo, mas como os acusados não dizem isso em declarações no tribunal, fica apenas como intriga.

Será que o Comité Central já considera isto como escândalo ou é um caso normal? Já está se fazendo alguma investigação interna?

Abraco

Reflectindo disse...

Linette

Claro que é o futuro melhor para eles. Formam-se e formam os seus flhos e familiares em melhores universidades do mundo com vida luxuosa à custa de bens públicos. O futuro deles está garantido como melhor.

É combate à pobreza, mas a deles. Eles já não são pobres no meio de número de pobres que aumenta cada vez mais.

Wagner disse...

Pensando bem este nome de Hermenegildo é muito comum a este tipo de cargos, Administrador, PCA e tantos outros, assim sendo não admira-me que este não seja o único Hermenegildo na vida embrulhado neste tipo de negócio, quem não se lembra da Maquinag, Mabor, BPD e tantas até na Vodacom - Moçambique, só foi para citar o grau de cumplicidade que estas coisas têm, só que a ADM, não é uma Empresa qualquer se não estaria em ruínas como a Maquinag...

Reflectindo disse...

Bem vindo Wagner. Interessante! Já que não é apelido, será que podemos pensar são afilhados?

Abraco

Anónimo disse...

Este país é uma lástima.
Continuam a roubar e nada é feito.

Reflectindo disse...

Caro anónimo

Apesar de tudo, no dia que quisermos acabar com tudo isto, acabará. O grande problema é da complacência à corrupção de muitos moçambicanos. Pode ser por ignorância, pelo que os lúcidos têm que fazer o seu dever.
Nós moçambicanos temos que deixar de mostrar dentes a corruptos seja onde for. Há que mostramos a nossa aversão à corrupção e corruptos. Não há que fazer pazes com estes males.